Coluna do Autor: "Um dia daqueles…" de Miguel Castro - Autor convidado
- 26 de nov. de 2016
- 5 min de leitura
"Um dia daqueles…"
de Miguel Castro

Sabem aqueles dias em que nós acordamos com uma sensação muito estranha do que alguma coisa vai acontecer de errado mas não sabemos propriamente o que é? Todos temos desses dias em que mais vale a pena não sair de casa...
Há dois dias, tive um dia desses…. Normalmente, acordo sempre muito bem disposto, pronto para enfrentar o dia à dia e o que vier pela frente, mas há dois dias, acordei desconfiado e não gosto nada de acordar desconfiado. As rotinas matinais do dia correram normalmente, mas alguma coisa me dizia que aquele dia iria ser um dia, não.
Saí de casa e decidi ir a pé à estação de comboio o que normalmente faria de carro. Não que seja longo o caminho, mas por uma questão de comodismo normalmente usaria o carro, mas não sei porquê, decidi ir a pé. Quando cheguei à passagem de peões para atravessar, olhei para os dois lados, como se deve fazer, o lado direito estava livre e depois olhei para o lado esquerdo.
Quando olhei para o lado esquerdo vi que vinha lá um Opel Corsa a uma velocidade um pouco estranha para quem vai ter que abrandar para deixar passar os peões. Entretanto, chegaram mais duas pessoas que também desconfiaram da velocidade do carro e pararam ao meu lado. Quando comecei a reparar melhor no carro e na pessoa que estava a guiar, a sensação que tive foi que o carro vinha sem ninguém lá dentro e parecia que vinha desgovernado, pois não se via ninguém ao volante. Pelo sim, pelo não, cheguei-me para trás para ver melhor porque agora quem estava intrigado, era eu. O carro continuou à mesma velocidade em que vinha e nada de parar na passadeira para nos deixar passar. Quando o carro está mesmo a chegar à passadeira, continuei a achar que ninguém vinha dentro do carro e consigo ver através do vidro, duas mãozinhas em cima do volante e o topo do penteado de alguém, não se viam sequer os olhos, só mesmo a moleirinha. Quando o carro passa mesmo à nossa frente, olhei lá para dentro, claro, e até para refilar com o condutor, vejo uma senhora de idade, com um sorrisinho na cara, muito concentrada, que nem sequer se apercebeu que nós ali estávamos para atravessar. O ângulo de visão da senhora devia ser o céu, estava tão enterrada no banco que para os lados não via nada.
Nós até comentámos o perigo daquela situação e nos congratulámos por não termos atravessado. Eu fiquei a olhar a seguir o carro para ver o que é que se iria passar a seguir uma vez que ou a senhora iria para a auto-estrada e aí mantinha o rumo pela direita ou teria de chegar a uma rotunda. Tal era a velocidade do carro que como já disse fiquei com curiosidade para ver o que se seguia.
O incrível aconteceu. Foi directa à rotunda, contornou-a a tal velocidade que eu achei que a senhora se iria despistar contra uma casa. A sensação que dava era que enquanto o carro contornava a rotunda à esquerda para voltar para trás, mais o carro acelerava, isso era óbvio. Portanto, mais a senhora tombava para a direita com a velocidade, mais carregava no acelerador porque devia vir agarradinha ao volante. Pensei que ia haver um despiste ou um pião, ou, no mínimo, que a senhora fosse projectada para o lado do acompanhante, mas não, de repente a minha curiosidade do desfecho quase que me teria morto. O carro sai da rotunda a uma velocidade incrível e vem disparado na minha direcção, outra vez, completamente desgovernado no meio da estrada em direcção ao passeio de onde eu observava toda esta situação caricata e dantesca. Por um autêntico milagre a senhora consegue controlar o carro com as mãozinhas no topo do volante e com uma sorte espectacular por não vir ninguém no sentido inverso, porque aí teria sido um caso muito sério, mesmo.
Claro que a senhora torna a passar a passadeira sem parar para ninguém e lá vai ela com o mesmo sorrisinho, a olhar para o céu até à próxima rotunda duzentos metros mais à frente onde provavelmente faria o mesmo, quem sabe, com piores resultados.
Depois disto tudo, atravessei a rua ainda a rir pela situação em si e a pensar no perigo que representava uma pessoa na estrada sem ângulo de visão. Talvez com uma almofadita debaixo a senhora ficasse com uma melhor noção do espaço e que as pessoas andam nos passeios e não no céu.
Como já disse atravessei a rua e continuei a descer até à estação. Quando chego ao próximo cruzamento, cento e cinquenta metros mais abaixo e é um cruzamento muito perigoso onde já aconteceram inúmeros acidentes, quando me preparava para atravessar, ainda no passeio, olho para esquerda, só vejo o Opel Corsa, o mesmo, a passar à minha frente outra vez sem parar e atravessa aquele cruzamento sem abrandar ou parar por um segundo. Como é que é isto possível? Outra vez? Mas a mulher anda atrás de mim para me atropelar…
Eu pensei, se calhar naquele dia estava para ser atropelado por um Opel Corsa, daí ter acordado desconfiado ou com uma sensação estranha. Continuei na direcção da estação de comboios e já olhava para todos os lados com uma paranoia de que o dia iria acabar comigo atropelado por um Opel Corsa com mãozinhas, sem piedade. Seria o meu dia…
A seguir a este desassossego todo fui a uma esplanada, encomendei um bolo e uma bica e estava ali todo contente a gozar o fim da manhã quando, de repente, fiquei sem ver do lado direito. Ou melhor, eu via, mas os óculos do lado esquerdo completamente tapados. Tirei os óculos para ver o que se passava, olhei para cima por acaso e vi setecentos pombos a olharem para baixo e aí percebi que um deles, pelo menos, tinha-se descuidado e acertou-me na lente esquerda que estava completamente coberta de “guano.” A pontaria do raio de pombo… fiquei muito atrapalhado a olhar à volta para ver se alguém se teria apercebido da minha figura com os óculos sujos, mas não, tudo calmo e dei uma gargalhada interior. Por acaso, tinha um lenço de papel no casaco, limpei os óculos e concentrei-me no bolinho á minha frente. Quando ponho os óculos, ia vomitando e vi que o tão apetecido bolo também tinha sido vítima de um pombo que comeu marisco pouco fresco… eu não queria acreditar.
Fartei-me de rir com o dono do café, mas decidi que era melhor ir para casa e evitar o trânsito e pombos sem maneiras.
Não era por acaso que eu tinha acordado desconfiado que aquele dia iria ser diferente…eu deveria ter ficado em casa.
Seria inglório ter sobrevivido a três enfartes e morrer atropelado por um Opel Corsa…não poderia ter sido por um Jaguar? Ao menos isso…
Miguel Castro





















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