Coluna do Autor: "Histórias nos Aviões" de Miguel Castro - Autor convidado
- 11 de jan. de 2017
- 5 min de leitura
"Histórias nos Aviões"
de Miguel Castro

O “ Comboio” do Reencontro
Tive o prazer e a sorte de trabalhar numa companhia aérea nacional durante vinte e cinco anos, onde vivi momentos inesquecíveis sob o ponto vista emocional. Nada nos prepara para certas situações que nos aparecem no dia-à-dia que, por vezes, parecem impossíveis de acontecer. Temos que esquecer de onde vimos, a vivência que temos, porque nem todas as pessoas que andam nos aviões vivem nas cidades, nem todas têm acesso a todas as “modernices” tecnológicas que muitos de nós tomamos como garantidas e que com quais já não podemos viver sem elas, Internet não faz parte do vocabulário porque, por vezes, nem fazem ideia do que é e em muitos dos casos, a própria Televisão ainda é vista como um objecto estranho, por mais que nos faça confusão. Todos temos a nossas realidades e como Tripulantes temos que experienciar a experiência dos outros.
Nos aviões acontece de tudo, como em qualquer lado, mas há situações pelas quais passamos, que pelo bizarro, nunca mais esquecemos, porque ficam connosco porque nos marcaram, seja pela positiva, seja pela negativa e, às vezes, também pelo insólito.
Lembro-me de uma situação tão peculiar, que me levou a pensar, como é que é possível isto estar a acontecer ou melhor, como é que é possível nos dias de hoje, que uma situação como aquela que vou descrever se possa passar. Este dia foi um dos dias que me fez pensar…
Naquele dia ia para Nova Iorque. Um voo que saía por volta do meio-dia e meia hora. Tudo estava pronto no avião para começar o embarque dos passageiros. O avião era um Lockheed 1011 e levaria naquele dia uma casa quase cheia o que representava quase duzentos passageiros. O embarque começou trinta e cinco minutos antes da saída do voo e os passageiros viriam de autocarro do terminal para o avião, nada de especial com este cenário. Como já disse o avião estava quase cheio na Classe Económica, sobrando apenas as duas últimas filas do avião que estavam vazias. Este avião tinha dois lugares do lado esquerdo, cinco no meio e dois lugares do lado direito. Quando o embarque estava quase no fim, apareceram dois colegas meus de “Terra”, com um senhor de muita idade com o ar mais querido do mundo e vinha muito sorridente. Os meus colegas vieram com o senhor até às últimas filas e sentaram o senhor na penúltima fila no lugar do meio. Eu aproximei-me dos meus colegas para sugerir o lugar de janela que estava livre, mas olharam para mim e começaram a fazer caras e a dizer que o melhor lugar para o senhor seria aquele do meio. Eu não percebi mas claro deixei a situação andar e o senhor foi sentado onde recomendaram. Depois de sentado perguntei ao senhor se queria tirar a samarra e o chapéu ao que imediatamente e muito polidamente me respondeu que não, que queria ficar com a samarra vestida e com o chapéu na cabeça porque tinha frio. Assim ficou decidido. Os meus colegas iam voltar para o aeroporto depois de terem acompanhado o senhor até ao avião e fizeram-me sinal que queriam falar comigo para me explicar porque é que tinham sentado o senhor naquele lugar específico. Quando eu ia falar com eles o senhor muito querido desabafou e disse aquilo que eu não queria acreditar que fosse possível. Disse-me isto que eu nunca mais me esqueci:
- Estou a viajar desde as quatro da manhã. Vim da minha aldeia no Norte com o meu filho que me trouxe aqui até Santa Apolónia…Eu vou de comboio porque tenho medo de andar de avião…
Eu fiquei sem saber o que dizer e a achar que não estava a ouvir bem e que o senhor se teria enganado. Olhei para os meus colegas de terra e perguntei o que é que se estava a passar e eles explicaram-me que o filho lhes tinha dito que era a única maneira de convencer o pai a ir, era dizer que ia de comboio, senão ele não ia mesmo. E disse mais, disse para não se preocuparem que iria resultar. Por incrível que pareça, o senhor foi para o avião sem nunca fazer uma pergunta sobre tudo o que o rodeava até lá chegar e mesmo quando lá chegou, nunca questionou ter subido uma escada para embarcar, nem sequer o próprio avião em si, que não era propriamente um comboio. De facto, o senhor estava muito contente e muito feliz por ir ver o outro filho que vivia na América e que ele não via há dez anos. Ainda falei com os colegas a perguntar o que é que se passaria na descolagem quando ele eventualmente se apercebesse que aquele aparelho era tudo menos um comboio. Eles mais uma vez confirmaram que o outro filho lhes tinha dito que o pai não se iria aperceber. Dito isto, os meus colegas saíram, eu expliquei a insólita situação ao meu Chefe de Cabine e para estarmos com atenção ao desenvolvimento da situação. Os discursos sobre o tempo de voo e destino iriam ser feitos e tínhamos que estar com atenção a qualquer reacção adversa do senhor. Os discursos foram feitos e não causaram qualquer reacção ao senhor. O próximo passo seria a descolagem em si, a velocidade do avião e a subida. O grau de inclinação do avião poderia fazer o senhor desconfiar que afinal não estava num comboio.
Por incrível que possa parecer, nada, mas mesmo nada afectou o senhor durante o voo. O senhor comeu lindamente, achou uma maravilha darmos comida duas vezes, nunca se levantou nem por dois segundos nem para ir à casa de banho. Nunca questionou as janelas, a cabine de passageiros daquela dimensão, nada. Felizmente o voo foi uma maravilha, sem um minuto de turbulência, tudo calmíssimo. Antes de aterrar fui falar com o senhor para lhe preencher a ficha de polícia e a ficha para a alfândega dos Estados Unidos e aquele homem tão doce e tão simpático nunca abriu a boca sobre a viagem a não ser para dizer que tinha demorado, mas que tinha valido a pena esperar pelo comboio para ir visitar o filho ao fim de tantos anos porque de avião ela não ia. O outro filho que o deixou em “Santa Apolónia” tinha toda a razão quando disse que o pai nunca iria desconfiar e que era tudo uma questão de teimosia.
Finalmente aterrámos, foram oito horas de uma belíssima viagem e o senhor começou então a emocionar-se que finalmente iria ver o filho. Ficou para o fim para ser acompanhado até ser entregue ao filho, sempre de samarra vestida e com o chapéu na cabeça. Saiu com um grande sorriso de gratidão pelo acompanhamento e lá foi ele aeroporto fora, num mundo completamente novo para ele mas excitante porque ia ver o outro filho.
Foi muito emocionante e bonito de ver quando chegámos às malas, pai e filho agarrados um ao outro a chorar de alegria e a olhar um para o outro sem fim como quem não estava a acreditar que fosse possível viver aquele momento. Enquanto esperávamos pelas malas o filho depois da festa toda com o pai dirigiu-se a nós para agradecer a colaboração.
Não sei o que é que se passava na cabeça daquele doce senhor, nem nunca irei saber, mas que foi emocionalmente compensador ver aquele reencontro, foi.
Três meses depois seria a volta para Portugal, será que o outro filho voltou a “Santa Apolónia” para buscar o pai?
Miguel Castro
Dezembro de 2016





















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