Coluna do Autor: "Plano espiritual" de Laura Ramos
- 2 de mai. de 2017
- 3 min de leitura
"Plano espiritual"
de Laura Ramos

Cada facto, acontecimento da vida, manifesta-se em diferentes planos. Há o plano físico que constitui a dimensão física do facto.
A dimensão física é o conjunto das ocorrências em que o facto se traduz, a sequência dos actos que compõem o acontecimento.
Existem depois as outras dimensões em que o acontecimento ou facto se manifesta e se repercute: a dimensão emocional, como o conjunto das emoções que provocam o facto e que por ele são causadas e que moldam a personalidade, o ego, a manifestação visível das pessoas que somos; a dimensão mental já se reporta às nossas convicções, às nossas opções conscientes ou não.
Estas dimensões estão interligadas, influenciam-se e pressupõem-se umas às outras.
Até aqui conseguimos ter compreensão racional sobre o acontecimento.
Nos planos emocional e mental estão as causas próximas do nosso comportamento. É nesses planos que entram em acção as circunstâncias que compõem o contexto de cada um e que influenciam as emoções e os pensamentos, os sentimentos e as decisões, conscientes ou não. É provavelmente aí que podemos ser tecnicamente ajudados por profissionais que estudaram para interpretar os meandros da personalidade e chegam às causas profundas do acontecimento.
Todavia, eu acredito que existe um outro plano e que é o espiritual, o qual se traduz no supremo fio condutor do facto. Cada facto ou acontecimento é influenciado por uma lógica que nos transcende, obedece a leis do universo que, por mais que nos debrucemos sobre elas, apenas as podemos intuir superficialmente porque não temos o comando do xadrez da vida. Somos apenas peças desse xadrez e, nessa condição, podemos intuir ou não algumas regras do jogo vida.
A lógica espiritual de cada acontecimento apenas pode ser intuído por aquele que o vivência.
Deriva disto que um facto pode ser compreendido nos seus planos emocional, racional e espiritual.
Aquele que apenas vislumbra a dimensão física do facto, limita-se a constatar o conjunto de ocorrências e dificilmente evolui por ele. Já aquele que explora a dimensão emocional e mental do facto pode alcançar algum conhecimento sobre si próprio. Mas ainda se situa numa abordagem material da sua realidade.
Aqueles que entram na dimensão espiritual podem mudar o destino, mas ainda que não o façam, mudam a percepção da realidade e deixam de viver no patamar reduzido da dimensão material.
A dimensão espiritual do facto é gigantesca e, ao mesmo tempo, muito simples. É gigantesca porque pressupõe que abandonemos considerações meramente humanas para a interpretação do facto e pode dar-nos dados muito diferentes daqueles que temos numa abordagem meramente humana sobre a realidade, ainda que esta abordagem abarque as dimensões emocional e racional do facto.
Curiosamente, as considerações espirituais possibilitam ao sujeito compreender contradições inexplicáveis, sequências desproporcionais, injustiças à nascença, enfim, uma multiplicidade de factos aparentemente incompreensíveis e inverosímeis.
Mas a dimensão espiritual do facto é também muito simples porque pressupõe que, no limite, tudo se reduz à luta entre o Bem e o Mal.
Por exemplo, os acontecimentos políticos, económicos e sociais que se apresentam como fenómenos lógicos ou como destinos para pessoas, grupos ou nações – estou a lembrar-me, por exemplo, de monarquias e regimes políticos que nascem e morrem por factos que parecem acontecer para lhes influenciar o rumo, na verdade são influenciados por um plano invisível maior. Eu acredito que seja assim.
Concluo que, ainda assim, prefiro a Arte à racionalização filosófica da realidade. Quando teorizamos a realidade, deixamos menos espaço para a criatividade. Quando fazemos arte, seja em que modalidade for - escrita, música, pintura, imagem – tocamos o invisível sem o denegrir segundo as nossas próprias limitações mentais e emocionais; e permitimos ao outro tocar o invisível à sua maneira porque, na verdade, o invisível pertence a todos, é uma espécie de património universal no qual cada um tem direito a um quinhão, ou seja, à sua própria morada.
Laura Ramos
Abril 2017





















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